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9 de abril de 2012

Dossiê Não Morda a Maçã – uma desilusão.

Nesse fim-de-semana, nós entramos na subcultura do Não-Morda-A-Maçã. Subcultura não porque o movimento seja desprezível, mas porque se encaixa dentro de uma outra cultura que é o protestantismo brasileiro – e se encaixa perfeitamente. Ariovaldo Jr., pastor do Manifesto Missões Urbanas, afirma, sobre movimentos como este que “Regras para namoro [...] são umas coisas mais tristes que uma Igreja pode utilizar. Mutilar o exercício da sexualidade com o pretexto de “guardar-se” soa tão hipócrita quanto furar os dois olhos para evitar olhar para mulher do próximo.” Abner Melanias ainda diz que  ”Subestimar a inteligência e capacidade de escolha de um jovem é também colocar a força de Deus em cheque no trabalho de salvação, em todos os sentidos da vida humana.”
Fomos eu, o Thalys (presbiteriano) e a Cindy (batista da lagoinha) pra conhecer mais do movimento, da pregação e da teologia deles, depois de tanto ouvir tantas coisas sobre eles mas de não saber de fato o que era, já que o blog sempre foi muito evasivo quanto às raízes doutrinárias e teológicas do evento.
Antes ainda de escrever o texto, queria dizer que o Márcio, co-apresentador do Seminário, (não tive oportunidade de conversar com o Ortega), é super gente boa, um cara muito massa – e as nossas diferenças teológicas não influenciam no quanto ele é um cara legal.
Logo que eu e o Thalys chegamos no evento, já rolou uma coisa que deixou a gente meio de sobrancelha erguida – na hora de pegar as pastas, as pessoas eram divididas em pulseiras vermelhas (namorando) e pulseiras verdes (solteiro) – não, não é brincadeira, sente a foto:

Eu e o Thalys não mordendo a maçã, juntinhos na cama.
Nessa vibe, já sabia que ia rolar alguma interação entre solteiros – a última coisa que eu queria – descolei uma pulseira vermelha pra mim, e por via das dúvidas até a aliança do meu antigo namoro voltou pra mão (sim, eu fui preparado) – a pulseira verde da foto é a da Cindy.
Sim, podem falar que eu estava com medo – porque eu estava, e muito. Afinal, interações dentro de igreja são meio complicadas – como o Abner ia colocar muito bem em palavras, e eu não conseguiria dizer melhor, “percebe-se nas entrelinhas do discurso o incentivo ao “não-tesão” pela vida ou a castração dos instintos fisiológicos colocados por Deus no homem não por acaso.
Então começou o evento. Logo no primeiro minuto, o Ortega já deixou claro que não seria um evento sobre “namoro cristão”, mas sobre “adoração”. Tá, bacana, digno – e começaram a bater nos pontos básicos da vida cristã, tal qual o porquê fomos criados (Is. 43:07 – para gloriar ao Senhor), o que estamos fazendo aqui, para onde vamos, toda essa história que a gente já sabe.

Na casa do Senhor não entra Satanás
Pô, bacana, até aí 100%. E parece que foi só a gente começar a relaxar, o Ortega começou a se afogar numa história meio complicada (mas que a gente já está acostumado no meio cristão evangélico) – a igreja é a casa do Senhor, e nós ali, na comunidade, estaríamos mais protegidos (embora ele tenha dado um princípio de reação ao dizer que deveríamos ser os mesmos em todos os lugares.

Uma maçã mordida.
Voltando a palavra, ele fez alguns comentários bastante pertinentes sobre relacionamentos – quem não tem foco não sabe escolher, quem está desesperado por um relacionamento acaba ficando com o primeiro que aparecer na frente – tudo aquilo que já sabemos, e concordamos.
A partir daí, foi só piorando.
Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte;
Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.
Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; [1 Pedro 5:6-8]
Toda a teologia, todo o fundamento do Não Morda a Maçã se baseia neste versículo. Só que na real, é meio (eu não tenho outra palavra pra falar isso) paia reduzir todo esse versículo à vontade de pegar alguém (porque, convenhamos, é isso que faz o adolescente/pré-adolescente ficar ansioso por um relacionamento). Quanto à isso, me apoio novamente numa citação do Abner, que diz que “a teologia NMM inverte e distorce o texto bíblico transformando-se em puro sofisma, do qual Paulo nos pediu insistentemente que rejeitássemos.
Especificamente sobre este trecho, Thiago Paiva diz que, como consta no primeiro versículo da carta, ela foi escrita para os cristãos dispersos na Ásia, e “tu acha MESMO que com gente querendo te matar pelo simples fato de você crer em Cristo como seu salvador, cê vai ficar preocupadinho com ter relações com alguém? [...] Então essa carta foi direcionada de forma com que estes cristãos fossem fortalecidos nessa confusão toda.” Tanto o texto se volta para isto, pelos conselhos que Pedro continua a dar, no resto da carta.
A gente chega nessa questão da ansiedade”, continua Paiva “Tempos conturbados, de perseguição, você é jovem, não tem cargo nenhum na liderança da sua comunidade, vai ficar tudo é NEBULOSO pra você. Você não vai entender é NADA. E nuns tempos difíceis desses, você fica apavorado! E aí é que Pedro manda a deixa: DESCANSEM NO PAI. Fiquem de olho, se achar que consegue pelos próprios meios, se der lugar pro inimigo, aí que a coisa complica de vez. Então, nada melhor que entregar toda ansiedade, dúvida e situação nebulosa, nas mãos do Pai, que tem cuidado de nós.”
Ansiedade, via Michaellis: an.si.e.da.de
sf (lat anxietate) 1 Aflição, angústia, ânsia. 2 Psicol Atitude emotiva concernente ao futuro e que se caracteriza por alternativas de medo e esperança; medo vago adquirido especialmente por generalização de estímulos. 3 Desejo ardente ou veemente. 4 Impaciência, insofrimento, sofreguidão.
Segundo Ortega, portanto, não deveríamos ficar ansiosos, porque ansiedade trazia medo, e o medo nos paralisava, e portanto, era do inimigo (insira alguns amém! aqui). Devemos, então, arriscar, ousar e arrancar qualquer dúvida dos nossos corações – porque é isso que fé significava.
Se você tem fé [disse Ortega] você pula de um prédio e Deus vai te segurar. Eu morria de medo de avião, até que entendi isso. Agora, como eu tenho fé, e sei que Deus tem planos pra mim, eu sei que não vou morrer. O avião pode até cair, mas eu vou sobreviver.

Vai, filho, vai...
Não, eu não vou comentar isso. Quem vai comentar é a Joyce Adeline, formada no curso básico de teologia no ISBL: “ …o Deus que eu sirvo é tão bom e tão confiável, que antes de me segurar da queda, me deu sanidade pra não precisar pular, e poupar o trabalho dos anjinhos.  Confiança“, continua ela, “é crer no caráter de Deus, mas não na sua imortalidade, afinal, Deus tem planos pra pessoas de 15 e tem planos pra pessoas de 80 anos. Jesus morreu com 33, podia ter feito tanta coisa boa ainda? Morreu cedo né? Vai ver ele não confiava nos planos” Arrematando todo esse pensamento, Abner Melanias concluiu: “reconhecer na insegurança (do não ter a visão completa do quadro) que o diálogo com o Misterioso Deus não é se munir de certezas e sim fé naquilo que não está bem na frente do nosso nariz.
Resumindo: o movimento não busca o amadurecimento das pessoas, a reflexão sobre como é um namoro, mas dá, sim, um passo a passo de como arrumar um relacionamento. É um manual passo a passo, ao estilo dos seminários de prosperidade financeira, e assim como eles, se baseia em alguns versículos com interpretação forçada, soando no início como uma visão alternativa e passando para o absurdo completo, assim que tenta se justificar. “ Obviamente é necessário mantermos um namoro centrado na vontade do Pai.” volta Paiva “Mas jamais devemos distorcer a Palavra de Deus para justificar teorias
Você quer começar um relacionamento? Tem que estar bem consigo mesmo’, e a partir daí, vêm tanta auto-ajuda barata, desde um ‘valorize a si mesmo, vaso’ até ‘se você não se amar, quem vai te amar’, que nos fez ir almoçar mais cedo.
Concluo, portanto,  com mais uma citação do Ariovaldo Jr: “A REFLEXÃO é mais importante do que qualquer outra coisa. É indispensável que ensinemos pessoas a conviverem com circunstâncias reais. Uma santidade LIVRE, cujo objetivo seja atingir a maturidade.
Colaboraram com este dossiê, em ordem alfabética:
@AbnerMelanias – formado em Letras, líder de louvor da igreja O Brasil Para Cristo de Ferraz de Vasconcelos, escreve no Contraposição;
@AriovaldoJr – Pastor do Manifesto, blogueiro, professor da Escola de Plantadores de Igrejas;
@JoyceAdeline – formada em Teologia Básica pelo ISBL Maringá, blogueira;
@Paiva_Thiago – Seminarista do Seminário Teologico Batista do Litoral Paulista,blogueiro.
Agradecimento especial ao Thalys Guimarães e à Cindy Bernardes, que estiveram comigo no Seminário
Diretamente do Blog do Abigobaldo

Um comentário:

  1. Em defesa do NMM, ao contrário do que estão dizendo. Eu penso o contrário em relação ao que voçês dizem que 1 Pedro 5:6-8 é um versículo para "pegar" alguém (pra mim, depois que falaram isso, já perderam todo o crédito). Acho que vocês não entenderam o que eles querem passar, falando sobre *Adoração no tópico - Namoro Cristão. Num sei se vocês acompanham toda a histório do NMM, mas, o Fernando ele prega o entendimento dele, ele prega o que ele viveu e entendeu aquilo que se passou por ele, cabe a vocês entenderem e interpretarem do jeito que quiserem. O seminário foi muito bom sim. E a respeito das pulseiras se eu num me engano, não foi não teve parte alguma ligada aos meninos da NMM. Foi a própria Sal da Terra que tiveram essa idéia de dividirem as pulseiras entre namorados e solteiros (a única coisa que o pessoal da NMM levaram para o evento foi as camisetas deles, só!) NÃO MORDA A MAÇÃ está sendo uma benção para cristãos que não sabem o que fazer em relação a ter um (a) namorado (a)futuro, e eles estão tentando tirar essas dúvidas da gente. E outra coisa... eles não pregam apenas em cima de 1 Pedro 5:6-8, eles repassam que agente deve usar o nosso namoro como adoração a Deus. Como diz em Salmos 24 : 6 " Essa é a geração Esta é a geração daqueles que buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó."
    Fiquem na paz.
    Dono do LeGospel - Johnatan H. Uberlandia MG

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